Junta de Freguesia de Santa Maria de Pigeiros Junta de Freguesia de Santa Maria de Pigeiros

História

Pigeiros até ao Século XVIII: A Origem da Freguesia

1. Raízes Antigas: Romanos e a Etimologia do Nome

Para compreendermos Pigeiros, temos de recuar muito no tempo. A presença humana na zona entre Douro e Tejo é atestada por antigos povos, como os que habitaram o Castro de Romariz, antes da chegada dos romanos. A passagem romana pela nossa terra é quase certa. Perto da igreja, foram descobertas duas lápides funerárias romanas: uma referente à consagração aos deuses Manes por uma pessoa chamada Avitus, e a outra, a lápide de um filho de Sabino.

Mas o próprio nome, Pigeiros (Peiarios), atesta uma grande antiguidade, remontando provavelmente à época suevo-gótica ou aos inícios da Reconquista. O termo liga-se a "pigeiros" ou "talhadoiros", locais de pastagens situados em fundos húmidos, onde os habitantes partilhavam e dividiam a terra e a água.

Documentos do século XI fazem referência a Pigeiros de diferentes modos: Pelagiarios, Pegiarios, Peiarios em 1085, Pigeiros em 1090, Pegeirios em 1099, mas situando-a sempre perto de Gaiate, nas Terras da Feira, onde corre o Rio Uima, o que evidencia sempre tratar-se de Santa Maria de Pigeiros.

Segundo a monografia “Santa Maria de Pigeiros da Terra da Feira” de 1968 do Padre Domingos A. Moreira, a mais antiga referência a Pigeiros é a de um documento do ano de 1083, de venda de uma herdade a Gonzaluo e sua mulher Geoluira por Sagado e mulher Sontrilde, de uma “hereditate nostra propria que auemus … inter Gagiat e Peiarius”, isto é, entre Gaiate (Milheirós de Poiares) e Pigeiros. Aparece ainda referenciada como povoação em documentos do ano 1085.

2. Da Villa à Freguesia (Séculos XI a XIII)

Pigeiros é mencionada pela primeira vez em documentos em 1083 como villa de Peiarios. Inicialmente, a região pertencia à Diocese de Coimbra, passando para o Porto apenas a partir de 1137. O estatuto de freguesia de Santa Maria de Pigeiros foi oficialmente atestado nas Inquirições de D. Afonso III em 1251. Antes fora vila com um senhor particular e vila honrada com a sua Quintã, desde os primórdios da monarquia. Para a igreja ser estabelecida, era necessário um dote (património), que incluía os chamados passais - terrenos destinados ao cemitério e à sustentação do clero.

Em 1288, as inquirições de D. Dinis confirmam: “Freguesia de Santa Maria de Pigeiros. A Quintã de Pedro Affonso Ribeyro com toda a villa tragea Pedro Affonso por Honra que nom entra hy Mordomo mas entra hy Porteiro e Peitam ende Vos e coyna e omegio … dam a El Rey outo moyos de pam … Estee como estaa.” Este registo mostra claramente a estrutura senhorial e o estatuto especial de Pigeiros na época.

3. A Terra Nobre: Honra e Padroado Fidalgo

Uma das características mais marcantes de Pigeiros na Idade Média é o seu estatuto de Honra, que significava terra nobre pertencente a fidalgos. Na era de César (1286), D. Sancho II deixa em testamento as rendas da Quintã de Pigeiros a Rodrigo, filho de Afonso Pires Ribeiro. Esta Quintã, o paço, o senhorio de Pigeiros e o padroado da sua igreja passam, em 1383, para o primeiro conde de Barcelos, D. João Afonso Telo, e em 1385 para o Conde da Feira, ainda com parentesco ao Condestável D. Nuno Álvares Pereira.

O direito de Padroado secular - o direito de apresentar o pároco - estava anexado à Quintã. Os párocos desta freguesia eram designados Abades. No século XVI, a propriedade da Quintã e o direito de Padroado passaram para a família Rocha. Em 1576, Tomé da Rocha, cavaleiro de Cristo e fidalgo da Casa Real, residente no Porto, comprou os bens de Pigeiros a Isabel de Andrade, viúva de António Pereira, pela quantia de 280$000 réis. Em 1594, instituiu os bens de Pigeiros como morgado, impondo a condição de os sucessores usarem o apelido Rocha. Este sistema de morgadio tinha como objetivo a conservação da riqueza e da nobreza da casa. A última morgada foi D. Antónia da Rocha Colmeeiro Corte Real.

Sobre a portada do paço fora então colocado o brasão de armas dos Rochas, que ali se manteve até que o morgado Salvador da Rocha Tavares o retirou para outra propriedade em Ovar. Em 1758 ainda existiam na Quintã restos desse solar, sempre conhecido pelo nome de paço, e diz a tradição que no seu pátio havia chumbada uma argola, com o privilégio de asilo para qualquer criminoso que a ela se agarrasse. Afinal, o que são as coisas deste mundo: os padroados foram extintos, a Quintã foi vendida e do paço não resta mais que o sítio.

4. A Igreja e a Vida Religiosa

A padroeira secular de Pigeiros era Nossa Senhora da Assunção, também conhecida como Santa Maria. A igreja que servia a freguesia antes do grande incêndio de 1843 era, na verdade, a segunda a ser construída, erguida no mesmo local da atual. Em 1758, era descrita como “moderna de hua só nave”. A sua capela-mor foi refeita em 1743 por iniciativa do abade Francisco de Matos Soares.

Um marco importante na vida religiosa da freguesia ocorreu em 1697, quando foi concedida a Licença de Sacrário para conservar o Santíssimo Sacramento, algo que atesta que a comunidade contava, na altura, com 78 fogos (famílias). Em 1758, o Abade João Carlos da Rocha Tavares registou 96 fogos na freguesia. Também nesse período foram aprovados, em 1781, os estatutos da Irmandade de São Sebastião.

5. Uma Comunidade entre Montes e Caminhos

No ano de 1527, Pigeiros contava apenas com catorze casas e menos de cem habitantes. Foram estes moradores que, em 1545, construíram a igreja paroquial em substituição da anterior, que estaria situada num local ainda hoje chamado Sagrado, mas do qual se desconhece o local exato. Finda a sua construção, o padroeiro António Pereira apresentou Pascoal Coelho como pároco privativo de Pigeiros, a 6 de junho de 1547.

Durante séculos, Pigeiros manteve-se uma povoação pequena e isolada, perdida entre montes e quase sem ligação com o mundo exterior. Só em 1928 foi aberta a primeira estrada, que a aproximou das freguesias vizinhas e trouxe uma nova dinâmica à vida local. Desde então, Pigeiros deixou de ser apenas uma vila honrada da história medieval para se afirmar como uma comunidade viva, com identidade própria, tradição e memória, mas também com olhar voltado para o futuro.


Pigeiros no Século XIX: Entre a Revolução, o Fogo e a Luta

1. Adeus, Velha Ordem: As Reformas Liberais

O século XIX começou com a queda da velha ordem e o fim dos privilégios fidalgos que durante séculos haviam moldado a vida em Pigeiros. As Guerras Liberais, entre D. Pedro e D. Miguel, trouxeram o desmantelamento das estruturas tradicionais. Os antigos Votos de Santiago, tributos pagos à Sé de Braga, foram extintos em 1822. Pouco depois, em 1833, a freguesia viu o desaparecimento do Padroado Secular, o direito dos fidalgos de nomearem o pároco, abolido pela lei de 5 de agosto desse mesmo ano. No mesmo período, os dízimos - impostos sobre a produção agrícola que sustentavam o clero e a fábrica da igreja - foram substituídos pelas côngruas. Este novo sistema trouxe dificuldades, pois muitos paroquianos resistiam em pagar, argumentando que a conservação da igreja cabia ao abade, como era tradição no regime anterior.

O clima político estava inflamado. O padre José de Almeida Barbas, natural de Lisboa e fiel a D. Miguel, foi nomeado para a paróquia de Pigeiros durante o conflito. O próprio rei o apresentara, justificando que os bens do antigo padroeiro, Manuel Maria da Rocha Colmieiro, estavam sequestrados por este se encontrar ausente e acusado de rebelião. No entanto, com a vitória liberal, D. Miguel foi derrotado e o padre Almeida Barbas abandonou a freguesia. Como recompensa, D. Pedro nomeou o padre António Caetano Ozório Gondim, um fervoroso liberal de Avintes, que tomou posse da paróquia a 18 de dezembro de 1833. No ano seguinte, Pigeiros contava com 309 habitantes, dos quais apenas quatro sabiam ler.

2. A Luta pelo Passal

Logo após tomar posse, o abade Ozório viu-se envolvido numa dura disputa. O antigo morgado, Manuel Maria da Rocha Colmieiro, reclamando ainda ser descendente dos antigos padroeiros, apoderou-se de várias propriedades da igreja, incluindo a residência e os passais. Privado de casa e terras, o abade foi forçado a alugar habitação. Nasceu assim a chamada Demanda do Colmieiro, um processo judicial que se arrastou por treze longos anos e consumiu grande parte dos rendimentos da paróquia. O abade, instruído e persistente, defendeu os direitos da freguesia até vencer definitivamente a causa na Relação do Porto, em fevereiro de 1845, recuperando os passais e a residência. O morgado, já sem padroado e sem terras, jurou vingança.

3. A Noite em que a Igreja Ardeu (1843)

No auge dessa disputa, Pigeiros viveu o seu momento mais trágico. Na madrugada de 24 para 25 de setembro de 1843, um incêndio devastador destruiu a Igreja de Santa Maria de Pigeiros, restando apenas as paredes. Os documentos da época descrevem o episódio como um “acintoso fogo” ateado por “monstros infernais”. A crença popular apontou o Colmieiro como mandante do crime, alegando que o objetivo seria suprimir a freguesia e garantir a posse dos passais. De facto, pouco antes, a 9 de julho de 1841, o administrador do concelho havia proposto a extinção da freguesia, repartindo os seus lugares por Milheirós de Poiares, Guisande e São Jorge. Mas o povo opôs-se firmemente e Pigeiros resistiu.

Durante os anos seguintes, o abade e a população uniram esforços para reconstruir o templo. Enquanto duraram as obras, o culto e os batizados realizaram-se na igreja de Duas Igrejas. A nova igreja foi concluída em janeiro de 1849 e inaugurada a 11 de fevereiro do mesmo ano, com o Santíssimo Sacramento regressando em procissão solene. No entanto, as dificuldades não terminaram: em 1839 a freguesia já havia sido roubada do seu único sino, e em 1855 parte dos passais foi vendida. Dois anos depois, a igreja voltou a ser assaltada e até o sacrário foi violado. Em 1890, novo arrombamento voltou a espoliar o templo de tudo o que tinha valor.

Em 1847, as tropas de Saldanha, vindas de Oliveira de Azeméis, atravessaram Pigeiros em formatura militar, provocando pânico entre os habitantes que respiraram de alívio apenas após a sua partida.

4. O Legado do Abade Mestre: Cultura e Comunidade

A figura central do século XIX em Pigeiros é, sem dúvida, o abade António Caetano Ozório Gondim, que serviu a freguesia durante quarenta anos, de 1834 a 1874. Mais do que um líder espiritual, foi um mestre e educador. Quando chegou à freguesia, registou que apenas quatro homens sabiam ler. Dedicou-se então ao ensino, lecionando gratuitamente leitura, escrita, aritmética e até disciplinas avançadas como Latim e Retórica, formando cinco sacerdotes naturais da terra. A sua ação foi decisiva no combate ao analfabetismo e na formação moral e cívica da população.

Durante o seu ministério, também enfrentou as transformações da fé e dos costumes. Em 1835 foi decretado que os enterros passariam a ser feitos fora das igrejas. O último sepultamento dentro da igreja de Pigeiros ocorreu em agosto de 1836, passando o adro a servir de cemitério. O abade Ozório lutou para que fosse vedado e respeitado, enfrentando a resistência de quem desejava manter os velhos hábitos.

A paróquia continuou a crescer e, apesar das dificuldades, manteve o seu espírito resiliente. Em 1882, já sob o abade Marcelino Henriques, uma disputa entre o povo e o proprietário da Quinta da Lage terminou tragicamente, quando o abade foi assassinado ao regressar da Feira. A justiça tardou, mas sete anos depois o culpado foi finalmente preso. Nesse mesmo período, chegou a Pigeiros o primeiro serviço regular de correio, símbolo do lento progresso que se fazia sentir.

Em 1887, a Junta de Freguesia pediu oficialmente a criação de uma escola. A resposta veio pela generosidade de Rufino José Henriques Coutinho, que cedeu uma casa sua para instalar a “Escola da Nogueira”, na Aldeia. A escola funcionou aí até 1913, quando José Henriques de Bastos doou ao Estado um edifício que recebeu o nome de sua mãe, Maria Rosa de Jesus, e que se tornaria a escola oficial da freguesia até 1965.


Pigeiros no Século XX: A Era da Transformação e da Conexão

1. A Grande Viragem Política e Religiosa

O início do século XX, com a implementação da República em 1910, marcou o fim de séculos de ligações estreitas entre o poder civil e a Igreja. A República renunciou ao direito de apresentação de párocos em 1911, e a figura do pároco como vogal nato e presidente da Junta de Paróquia foi extinta, separando finalmente o poder civil do religioso. O Estado, através da Lei da Separação de 1911, apropriou-se dos passais, igrejas e outros bens eclesiásticos. O Passal de Pigeiros, por exemplo, foi arrendado pela Câmara da Feira em 1912 e posteriormente vendido em 1917 a José Henriques de Bastos.

Os abades, que historicamente residiam longe da igreja, finalmente viram concretizado o desejo do Abade Osório do século anterior: no tempo do pároco António Martins Milhinha (após 1953), foi construída uma nova residência paroquial em terreno adquirido imediatamente a sul da igreja.

2. O Salto para a Modernidade: Infraestruturas e Comunicação

O século XX trouxe a Pigeiros um novo ritmo e a sensação de que o isolamento de séculos começava a chegar ao fim. Por volta de 1915 surgiu na freguesia a primeira bicicleta, sinal de um novo tempo. Apenas três anos depois, em 1918 apareceram os primeiros autocarros de passageiros e a ligação diária entre Corga, Pigeiros e S. João da Madeira através da Auto-Viação Feirense apareceu em julho de 1967.

A estrada Azevedo-Pigeiros-Gaiate de Milheirós foi construída em 1928 e continuada pela Igreja e Presa até à Bajouca, sendo pavimentada em 1930. Em 1924 a igreja recebeu uma reforma geral e foi colocado o relógio de torre.

O primeiro telefone chegou em setembro de 1952 e a rede de energia elétrica foi inaugurada em maio de 1956. A iluminação pública com lâmpadas de mercúrio foi instalada em junho de 1965, coincidindo com a colocação da primeira pedra da Escola Primária do Bairro do Sol.

Em 1970 iniciaram-se as aulas na nova Escola do Bairro do Sol, com a criação da quinta classe ou Ciclo Complementar, e a professora Maria Antónia da Costa Milheiro ficou a cargo das primeiras turmas. Com a transferência da escola, a Junta de Freguesia passou a funcionar nas instalações da antiga escola, agora desocupada. Em 1971 foi finalmente alcatroado o caminho que ligava o lugar da Quintã a Nadais, um anseio antigo da população.

A ligação de Pigeiros com Romariz apenas se concluiu nos anos 90, completando a malha rodoviária entre todas as freguesias vizinhas. O progresso materializou-se ainda com a criação de novos fontenários, no Passal e na Bajouca, e com o melhoramento das vias rurais que durante séculos haviam sido caminhos de terra batida.

3. População, Educação e Economia

A vida da população sofreu mudanças profundas ao longo do século XX. O número de habitantes aumentou de 514 pessoas em 1920 para 804 em 1960. O analfabetismo, que no século anterior era quase universal, começou a desaparecer. A escola oficial doada ao Estado em 1913 substituiu a antiga Escola da Nogueira e foi um marco na instrução da freguesia.

O trabalho agrícola, que durante séculos sustentou as famílias locais, começou a perder importância. A modernização trouxe máquinas que substituíram as antigas sachadas e malhas, e muitos habitantes passaram a trabalhar diariamente nas fábricas de São João da Madeira e Arrifana. O quotidiano de Pigeiros tornou-se cada vez mais ligado à vida industrial e urbana da região.

4. A Fé na Comunidade

Apesar das transformações políticas e sociais, a fé permaneceu o coração da vida comunitária. O abade António Inácio da Costa e Silva, falecido em 1938, foi o último pároco colado (apresentado pelo Rei) de Pigeiros. A partir de então, os párocos passaram a ser nomeados diretamente pelo Bispo.

As irmandades tradicionais, como a do Santíssimo Sacramento e a de São Sebastião, continuaram ativas e enraizadas na vida religiosa. Novas associações surgiram com espírito solidário e comunitário, como a Comissão da Cáritas, fundada em 1964, e a Juventude Operária Católica Feminina, que mobilizava jovens da freguesia em iniciativas sociais e de apostolado.

5. Pigeiros Contemporânea: Identidade e Memória

Em Agosto de 1999 foi inaugurado o “Calvário”, lugar de devoção, outrora também habitado conforme descrito na “Monografia Santa Maria de Pigeiros” do Padre Domingos A. Moreira.

A 21 de março de 2001, um forte temporal destruiu a ponte que ligava a freguesia à Estrada Nacional n.º 1. No mesmo local, junto ao Parque de Lazer do Rio Uíma, foi erguida a nova ponte que hoje assegura a ligação.

Atualmente, Pigeiros é composta por 16 lugares - Cavadas, Igreja, Várzea, Lage, Quintã, Vinho, Barreiro, Pé d’Arca, Aldeia, Gândara, Trezuma, Bajouca, Portela, Sobreiro, Presa e Cimo de Aldeia - unidos por séculos de história e pelas memórias das gerações que aqui viveram. Cada rua, cada monte e cada pedra contam uma parte do percurso coletivo desta terra que, mantendo viva a herança do passado, continua a inspirar o futuro.


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