Para compreendermos Pigeiros, temos de recuar muito no tempo. A presença humana na zona entre Douro e Tejo é atestada por antigos povos, como os que habitaram o Castro de Romariz, antes da chegada dos romanos. A passagem romana pela nossa terra é quase certa. Perto da igreja, foram descobertas duas lápides funerárias romanas: uma referente à consagração aos deuses Manes por uma pessoa chamada Avitus, e a outra, a lápide de um filho de Sabino.
Mas o próprio nome, Pigeiros (Peiarios), atesta uma grande antiguidade, remontando provavelmente à época suevo-gótica ou aos inícios da Reconquista. O termo liga-se a "pigeiros" ou "talhadoiros", locais de pastagens situados em fundos húmidos, onde os habitantes partilhavam e dividiam a terra e a água.
Documentos do século XI fazem referência a Pigeiros de diferentes modos: Pelagiarios, Pegiarios, Peiarios em 1085, Pigeiros em 1090, Pegeirios em 1099, mas situando-a sempre perto de Gaiate, nas Terras da Feira, onde corre o Rio Uima, o que evidencia sempre tratar-se de Santa Maria de Pigeiros.
Segundo a monografia “Santa Maria de Pigeiros da Terra da Feira” de 1968 do Padre Domingos A. Moreira, a mais antiga referência a Pigeiros é a de um documento do ano de 1083, de venda de uma herdade a Gonzaluo e sua mulher Geoluira por Sagado e mulher Sontrilde, de uma “hereditate nostra propria que auemus … inter Gagiat e Peiarius”, isto é, entre Gaiate (Milheirós de Poiares) e Pigeiros. Aparece ainda referenciada como povoação em documentos do ano 1085.
Pigeiros é mencionada pela primeira vez em documentos em 1083 como villa de Peiarios. Inicialmente, a região pertencia à Diocese de Coimbra, passando para o Porto apenas a partir de 1137. O estatuto de freguesia de Santa Maria de Pigeiros foi oficialmente atestado nas Inquirições de D. Afonso III em 1251. Antes fora vila com um senhor particular e vila honrada com a sua Quintã, desde os primórdios da monarquia. Para a igreja ser estabelecida, era necessário um dote (património), que incluía os chamados passais - terrenos destinados ao cemitério e à sustentação do clero.
Em 1288, as inquirições de D. Dinis confirmam: “Freguesia de Santa Maria de Pigeiros. A Quintã de Pedro Affonso Ribeyro com toda a villa tragea Pedro Affonso por Honra que nom entra hy Mordomo mas entra hy Porteiro e Peitam ende Vos e coyna e omegio … dam a El Rey outo moyos de pam … Estee como estaa.” Este registo mostra claramente a estrutura senhorial e o estatuto especial de Pigeiros na época.
Uma das características mais marcantes de Pigeiros na Idade Média é o seu estatuto de Honra, que significava terra nobre pertencente a fidalgos. Na era de César (1286), D. Sancho II deixa em testamento as rendas da Quintã de Pigeiros a Rodrigo, filho de Afonso Pires Ribeiro. Esta Quintã, o paço, o senhorio de Pigeiros e o padroado da sua igreja passam, em 1383, para o primeiro conde de Barcelos, D. João Afonso Telo, e em 1385 para o Conde da Feira, ainda com parentesco ao Condestável D. Nuno Álvares Pereira.
O direito de Padroado secular - o direito de apresentar o pároco - estava anexado à Quintã. Os párocos desta freguesia eram designados Abades. No século XVI, a propriedade da Quintã e o direito de Padroado passaram para a família Rocha. Em 1576, Tomé da Rocha, cavaleiro de Cristo e fidalgo da Casa Real, residente no Porto, comprou os bens de Pigeiros a Isabel de Andrade, viúva de António Pereira, pela quantia de 280$000 réis. Em 1594, instituiu os bens de Pigeiros como morgado, impondo a condição de os sucessores usarem o apelido Rocha. Este sistema de morgadio tinha como objetivo a conservação da riqueza e da nobreza da casa. A última morgada foi D. Antónia da Rocha Colmeeiro Corte Real.
Sobre a portada do paço fora então colocado o brasão de armas dos Rochas, que ali se manteve até que o morgado Salvador da Rocha Tavares o retirou para outra propriedade em Ovar. Em 1758 ainda existiam na Quintã restos desse solar, sempre conhecido pelo nome de paço, e diz a tradição que no seu pátio havia chumbada uma argola, com o privilégio de asilo para qualquer criminoso que a ela se agarrasse. Afinal, o que são as coisas deste mundo: os padroados foram extintos, a Quintã foi vendida e do paço não resta mais que o sítio.
A padroeira secular de Pigeiros era Nossa Senhora da Assunção, também conhecida como Santa Maria. A igreja que servia a freguesia antes do grande incêndio de 1843 era, na verdade, a segunda a ser construída, erguida no mesmo local da atual. Em 1758, era descrita como “moderna de hua só nave”. A sua capela-mor foi refeita em 1743 por iniciativa do abade Francisco de Matos Soares.
Um marco importante na vida religiosa da freguesia ocorreu em 1697, quando foi concedida a Licença de Sacrário para conservar o Santíssimo Sacramento, algo que atesta que a comunidade contava, na altura, com 78 fogos (famílias). Em 1758, o Abade João Carlos da Rocha Tavares registou 96 fogos na freguesia. Também nesse período foram aprovados, em 1781, os estatutos da Irmandade de São Sebastião.
No ano de 1527, Pigeiros contava apenas com catorze casas e menos de cem habitantes. Foram estes moradores que, em 1545, construíram a igreja paroquial em substituição da anterior, que estaria situada num local ainda hoje chamado Sagrado, mas do qual se desconhece o local exato. Finda a sua construção, o padroeiro António Pereira apresentou Pascoal Coelho como pároco privativo de Pigeiros, a 6 de junho de 1547.
Durante séculos, Pigeiros manteve-se uma povoação pequena e isolada, perdida entre montes e quase sem ligação com o mundo exterior. Só em 1928 foi aberta a primeira estrada, que a aproximou das freguesias vizinhas e trouxe uma nova dinâmica à vida local. Desde então, Pigeiros deixou de ser apenas uma vila honrada da história medieval para se afirmar como uma comunidade viva, com identidade própria, tradição e memória, mas também com olhar voltado para o futuro.
O século XIX começou com a queda da velha ordem e o fim dos privilégios fidalgos que durante séculos haviam moldado a vida em Pigeiros. As Guerras Liberais, entre D. Pedro e D. Miguel, trouxeram o desmantelamento das estruturas tradicionais. Os antigos Votos de Santiago, tributos pagos à Sé de Braga, foram extintos em 1822. Pouco depois, em 1833, a freguesia viu o desaparecimento do Padroado Secular, o direito dos fidalgos de nomearem o pároco, abolido pela lei de 5 de agosto desse mesmo ano. No mesmo período, os dízimos - impostos sobre a produção agrícola que sustentavam o clero e a fábrica da igreja - foram substituídos pelas côngruas. Este novo sistema trouxe dificuldades, pois muitos paroquianos resistiam em pagar, argumentando que a conservação da igreja cabia ao abade, como era tradição no regime anterior.
O clima político estava inflamado. O padre José de Almeida Barbas, natural de Lisboa e fiel a D. Miguel, foi nomeado para a paróquia de Pigeiros durante o conflito. O próprio rei o apresentara, justificando que os bens do antigo padroeiro, Manuel Maria da Rocha Colmieiro, estavam sequestrados por este se encontrar ausente e acusado de rebelião. No entanto, com a vitória liberal, D. Miguel foi derrotado e o padre Almeida Barbas abandonou a freguesia. Como recompensa, D. Pedro nomeou o padre António Caetano Ozório Gondim, um fervoroso liberal de Avintes, que tomou posse da paróquia a 18 de dezembro de 1833. No ano seguinte, Pigeiros contava com 309 habitantes, dos quais apenas quatro sabiam ler.
Logo após tomar posse, o abade Ozório viu-se envolvido numa dura disputa. O antigo morgado, Manuel Maria da Rocha Colmieiro, reclamando ainda ser descendente dos antigos padroeiros, apoderou-se de várias propriedades da igreja, incluindo a residência e os passais. Privado de casa e terras, o abade foi forçado a alugar habitação. Nasceu assim a chamada Demanda do Colmieiro, um processo judicial que se arrastou por treze longos anos e consumiu grande parte dos rendimentos da paróquia. O abade, instruído e persistente, defendeu os direitos da freguesia até vencer definitivamente a causa na Relação do Porto, em fevereiro de 1845, recuperando os passais e a residência. O morgado, já sem padroado e sem terras, jurou vingança.
No auge dessa disputa, Pigeiros viveu o seu momento mais trágico. Na madrugada de 24 para 25 de setembro de 1843, um incêndio devastador destruiu a Igreja de Santa Maria de Pigeiros, restando apenas as paredes. Os documentos da época descrevem o episódio como um “acintoso fogo” ateado por “monstros infernais”. A crença popular apontou o Colmieiro como mandante do crime, alegando que o objetivo seria suprimir a freguesia e garantir a posse dos passais. De facto, pouco antes, a 9 de julho de 1841, o administrador do concelho havia proposto a extinção da freguesia, repartindo os seus lugares por Milheirós de Poiares, Guisande e São Jorge. Mas o povo opôs-se firmemente e Pigeiros resistiu.
Durante os anos seguintes, o abade e a população uniram esforços para reconstruir o templo. Enquanto duraram as obras, o culto e os batizados realizaram-se na igreja de Duas Igrejas. A nova igreja foi concluída em janeiro de 1849 e inaugurada a 11 de fevereiro do mesmo ano, com o Santíssimo Sacramento regressando em procissão solene. No entanto, as dificuldades não terminaram: em 1839 a freguesia já havia sido roubada do seu único sino, e em 1855 parte dos passais foi vendida. Dois anos depois, a igreja voltou a ser assaltada e até o sacrário foi violado. Em 1890, novo arrombamento voltou a espoliar o templo de tudo o que tinha valor.
Em 1847, as tropas de Saldanha, vindas de Oliveira de Azeméis, atravessaram Pigeiros em formatura militar, provocando pânico entre os habitantes que respiraram de alívio apenas após a sua partida.
A figura central do século XIX em Pigeiros é, sem dúvida, o abade António Caetano Ozório Gondim, que serviu a freguesia durante quarenta anos, de 1834 a 1874. Mais do que um líder espiritual, foi um mestre e educador. Quando chegou à freguesia, registou que apenas quatro homens sabiam ler. Dedicou-se então ao ensino, lecionando gratuitamente leitura, escrita, aritmética e até disciplinas avançadas como Latim e Retórica, formando cinco sacerdotes naturais da terra. A sua ação foi decisiva no combate ao analfabetismo e na formação moral e cívica da população.
Durante o seu ministério, também enfrentou as transformações da fé e dos costumes. Em 1835 foi decretado que os enterros passariam a ser feitos fora das igrejas. O último sepultamento dentro da igreja de Pigeiros ocorreu em agosto de 1836, passando o adro a servir de cemitério. O abade Ozório lutou para que fosse vedado e respeitado, enfrentando a resistência de quem desejava manter os velhos hábitos.
A paróquia continuou a crescer e, apesar das dificuldades, manteve o seu espírito resiliente. Em 1882, já sob o abade Marcelino Henriques, uma disputa entre o povo e o proprietário da Quinta da Lage terminou tragicamente, quando o abade foi assassinado ao regressar da Feira. A justiça tardou, mas sete anos depois o culpado foi finalmente preso. Nesse mesmo período, chegou a Pigeiros o primeiro serviço regular de correio, símbolo do lento progresso que se fazia sentir.
Em 1887, a Junta de Freguesia pediu oficialmente a criação de uma escola. A resposta veio pela generosidade de Rufino José Henriques Coutinho, que cedeu uma casa sua para instalar a “Escola da Nogueira”, na Aldeia. A escola funcionou aí até 1913, quando José Henriques de Bastos doou ao Estado um edifício que recebeu o nome de sua mãe, Maria Rosa de Jesus, e que se tornaria a escola oficial da freguesia até 1965.
O início do século XX, com a implementação da República em 1910, marcou o fim de séculos de ligações estreitas entre o poder civil e a Igreja. A República renunciou ao direito de apresentação de párocos em 1911, e a figura do pároco como vogal nato e presidente da Junta de Paróquia foi extinta, separando finalmente o poder civil do religioso. O Estado, através da Lei da Separação de 1911, apropriou-se dos passais, igrejas e outros bens eclesiásticos. O Passal de Pigeiros, por exemplo, foi arrendado pela Câmara da Feira em 1912 e posteriormente vendido em 1917 a José Henriques de Bastos.
Os abades, que historicamente residiam longe da igreja, finalmente viram concretizado o desejo do Abade Osório do século anterior: no tempo do pároco António Martins Milhinha (após 1953), foi construída uma nova residência paroquial em terreno adquirido imediatamente a sul da igreja.
O século XX trouxe a Pigeiros um novo ritmo e a sensação de que o isolamento de séculos começava a chegar ao fim. Por volta de 1915 surgiu na freguesia a primeira bicicleta, sinal de um novo tempo. Apenas três anos depois, em 1918 apareceram os primeiros autocarros de passageiros e a ligação diária entre Corga, Pigeiros e S. João da Madeira através da Auto-Viação Feirense apareceu em julho de 1967.
A estrada Azevedo-Pigeiros-Gaiate de Milheirós foi construída em 1928 e continuada pela Igreja e Presa até à Bajouca, sendo pavimentada em 1930. Em 1924 a igreja recebeu uma reforma geral e foi colocado o relógio de torre.
O primeiro telefone chegou em setembro de 1952 e a rede de energia elétrica foi inaugurada em maio de 1956. A iluminação pública com lâmpadas de mercúrio foi instalada em junho de 1965, coincidindo com a colocação da primeira pedra da Escola Primária do Bairro do Sol.
Em 1970 iniciaram-se as aulas na nova Escola do Bairro do Sol, com a criação da quinta classe ou Ciclo Complementar, e a professora Maria Antónia da Costa Milheiro ficou a cargo das primeiras turmas. Com a transferência da escola, a Junta de Freguesia passou a funcionar nas instalações da antiga escola, agora desocupada. Em 1971 foi finalmente alcatroado o caminho que ligava o lugar da Quintã a Nadais, um anseio antigo da população.
A ligação de Pigeiros com Romariz apenas se concluiu nos anos 90, completando a malha rodoviária entre todas as freguesias vizinhas. O progresso materializou-se ainda com a criação de novos fontenários, no Passal e na Bajouca, e com o melhoramento das vias rurais que durante séculos haviam sido caminhos de terra batida.
A vida da população sofreu mudanças profundas ao longo do século XX. O número de habitantes aumentou de 514 pessoas em 1920 para 804 em 1960. O analfabetismo, que no século anterior era quase universal, começou a desaparecer. A escola oficial doada ao Estado em 1913 substituiu a antiga Escola da Nogueira e foi um marco na instrução da freguesia.
O trabalho agrícola, que durante séculos sustentou as famílias locais, começou a perder importância. A modernização trouxe máquinas que substituíram as antigas sachadas e malhas, e muitos habitantes passaram a trabalhar diariamente nas fábricas de São João da Madeira e Arrifana. O quotidiano de Pigeiros tornou-se cada vez mais ligado à vida industrial e urbana da região.
Apesar das transformações políticas e sociais, a fé permaneceu o coração da vida comunitária. O abade António Inácio da Costa e Silva, falecido em 1938, foi o último pároco colado (apresentado pelo Rei) de Pigeiros. A partir de então, os párocos passaram a ser nomeados diretamente pelo Bispo.
As irmandades tradicionais, como a do Santíssimo Sacramento e a de São Sebastião, continuaram ativas e enraizadas na vida religiosa. Novas associações surgiram com espírito solidário e comunitário, como a Comissão da Cáritas, fundada em 1964, e a Juventude Operária Católica Feminina, que mobilizava jovens da freguesia em iniciativas sociais e de apostolado.
Em Agosto de 1999 foi inaugurado o “Calvário”, lugar de devoção, outrora também habitado conforme descrito na “Monografia Santa Maria de Pigeiros” do Padre Domingos A. Moreira.
A 21 de março de 2001, um forte temporal destruiu a ponte que ligava a freguesia à Estrada Nacional n.º 1. No mesmo local, junto ao Parque de Lazer do Rio Uíma, foi erguida a nova ponte que hoje assegura a ligação.
Atualmente, Pigeiros é composta por 16 lugares - Cavadas, Igreja, Várzea, Lage, Quintã, Vinho, Barreiro, Pé d’Arca, Aldeia, Gândara, Trezuma, Bajouca, Portela, Sobreiro, Presa e Cimo de Aldeia - unidos por séculos de história e pelas memórias das gerações que aqui viveram. Cada rua, cada monte e cada pedra contam uma parte do percurso coletivo desta terra que, mantendo viva a herança do passado, continua a inspirar o futuro.
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